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domingo, 29 de agosto de 2010

Que é salvação, segundo o Padre Manuel Bernardes


Primeiro capítulo do livro do genial Padre Manuel Bernardes:


OS ÚLTIMOS FINS DO HOMEM
SALVAÇÃO E CONDENAÇÃO ETERNA.

TRATADO ESPIRITUAL

Dividido em dous Livros.

NO PRIMEIRO SE TRATA DA SINGULAR PROVIDÊNCIA

De Deus na salvação das almas; no segundo das causas gerais da perdição das almas, ou estradas comuns do Reino da morte.

ESCRITO E DEDICADO À SOBERANA

Rainha dos Anjos

MARIA SANTÍSSIMA

PELO PADRE

MANUEL BERNARDES,
Da Congregação do Oratório de Lisboa.


Que cousa é salvação, e em que consiste.

Quem diz salvação significa e insinua duas cousas: uma, livrar-se o que se salva de algum mal que já padecia, ou que o ameaçava; outra, conseguir algum bem, ou ao menos conservar-se no que já possuía. E assim dizia Jacob quando por temor de seu irmão Esaú dividiu a sua família e rebanho em duas turmas: se Esaú derrotar uma, salvar-se-á a outra: Si venerit Esau ad unam turmam, & pereusserit eam, alia turma, quae reliqua est, salvabitur. Isto é, escapará da destruição, ou roubo, que nos ameaça, e ficará conservando-se com vida, e no seu antigo domínio. Deste modo também se diz nas Escrituras, que do incêndio que abrasou e consumiu as cinco Cidades infames, se salvou Lot: Festina, & salvare ibi; e das águas do Dilúvio se salvaram só oito almas: Octo anime salve factae sunt per aquam: Isto é, que escaparam daquelas calamidades, em que tantos outros foram envolvidos, e se conservaram com vida por particular providência de Deus.

Pelo exemplo pois destas salvações materiais se entende bem em que consiste a salvação espiritual; porque de dous modos é esta: uma é salvação só principiada, outra é salvação já consumada. A salvação principiada consiste em livrar-se a alma do mal da culpa e conseguir o bem da graça; e neste sentido disse Cristo quando se converteu Zaqueu e propôs restituir o que devia mal levado; que naquele dia entrara a salvação naquela casa: Hodie salus domui huie facta est. A salvação consumada e perfeita consiste em ser um livre da perdição e morte eterna e misérias desta vida corruptível; e conseguir o bem da glória, último fim para que foi criado. E neste sentido disse o mesmo Senhor, que o que perseverasse até o fim, este seria salvo; e S. Pedro, que o Justo escassamente se salvaria: Justus vix salvabitur.

Quão grande seja esta miséria de que os escolhidos escapam e quão grande esta felicidade que alcançam não é possível explicar-se nem entender-se nesta vida; porque assim aquele mal como aquele bem são infinitos; e do infinito não temos espécie nesta vida, que nos ajude a formar conceito e a exprimi-lo com palavras. No progresso deste tratado irei dizendo este pouco, a que se estende minha curta esfera; e por hora só noto brevemente que pelo pecado de Adão nosso primeiro Pai, toda a massa da geração humana ficou corrupta e todos seus descendentes (exceptos somente Cristo e sua Mãe Santíssima Maria Senhora Nossa) no mesmo ponto em que somos concebidos, e é verdade dizer esta criatura é carne de Adão, naturalmente somos filhos da ira de Deus, e réus da morte temporal e da condenação eterna; somos também obrigados a suportar as inumeráveis misérias desta vida mortal e corruptível; como são cegueira de entendimento, debilitação da vontade para o bem, rebeldia do apetite, curiosidade e desordem dos sentidos, imundícia da carne, desobediência das outras criaturas inferiores, estímulo e opróbrio da má consciência, sujeição ao domínio tirânico dos demônios e uma tal inclinação a pecar, que quase parece necessidade forçosa: Non enim (diz S. Paulo) quod volo bonum, hoc facio; sed quod nolo malum, hoc ago; si autem quod nolo malum, illud facio, jam non ego operor illud, sed quod habitat in me peccatum. Porque mais ligeiramente prende e arde no nosso coração o fogo da concupiscência do que a faísca que sai da pederneira caindo na isca ainda que quente, que por isto a esta tal inclinação a pecar chamam os Teólogos isca do pecado: Fomes peccati. Porque todo o gênero humano é como uma teia que se urdiu em nossos primeiros Pais e se vai até agora tecendo pelos fios da geração ou linhas de descendência: Esta teia se queimou pela transgressão do primeiro homem, em cuja vontade estavam todas as nossas vinculadas; e assim caindo sobre ela de novo o fogo e o assopro da tentação que sai da boca do demônio: Halitus ejus prunas ardere facit, & flamma de ore ejus egreditur; torna a se abrasar e consumir totalmente.

Esta desgraça e ruína do gênero humano excede toda a semelhança a que se pode comparar. Esdras a compara ao Dilúvio universal: Factam est sicut Ada mori, sic his diluvium. Porém do Dilúvio escaparam oito pessoas das que então eram vivas; e do pecado só escapou Maria Santíssima, porque o seu fio não quis Deus que estivesse atado naquela urdidura: e Cristo Senhor Nosso, porque não foi concebido por obra de varão. Todos os mais nascidos até agora e por nascer até o fim do Mundo perecerão. Os Santos Padres a comparam ao cativeiro do Povo de Deus em Egito, e depois em Babilônia, que ambos foram duríssimos e mui prolongados; porém enfim eram cativeiros do corpo e não da alma; cativeiros de um Povo, e não de todas as nações; cativeiros de homens em poder de outros homens, e não em poder de demônios; cativeiros que ao menos se acabavam com a morte, e não cativeiro que de uma morte temporal se continuará com outra eterna, se Deus nos não livrar dele por sua misericórdia.

Nas Histórias se refere que no ano de Cristo 29, arruinando-se na cidade de Fidenas um famoso Anfiteatro, ao tempo que o Povo assistia aos espetáculos, matou e espedaçou debaixo de suas ruínas cinqüenta mil pessoas. Fatal calamidade! Porém que sombra de semelhança tem com a que causou a ruína de nossos primeiros Pais, debaixo da qual foram envolvidos e mortos todos os indivíduos da espécie humana?

Eis aqui, pois, o estado miserabilíssimo em que nos achávamos: Ita ergo res se habebat (considera Santo Agostinho) jacebat in malis, vel etiam volvebatur, & de malis in mala praecipitabatur totius humani generis massa damnata: & adjuncta parti eorum, Qui peccaverant, Angelorum luebat impiae desertionis dignissimas paenas. E querendo o Altíssimo remediar tantos males e que se não frustrasse o conselho de sua providência, com que a princípio nos criara para si, movido de sua natural bondade e misericórdia, mandou ao Mundo seu Unigênito Filho feito homem, para salvar os homens; e conforme a empresa a que era enviado e comissão que trazia, quis que tivesse por nome próprio o de JESUS, que é o mesmo que Salvador, cujas figuras, entretanto que se cumpria a Divina promessa, foram pelo discurso dos séculos antecedentes todos aqueles Varões insignes que libertaram o Povo Israelítico de seus inimigos; como Moisés, Sansão, Otoniel, Ahud, e por isso na Escritura se chamam Salvadores. E o mesmo nome se dá na Profecia de Abdias aos sagrados Apóstolos, porque enviados por Cristo, cooperaram com ele neste mesmo negócio da salvação do Mundo.

O modo excelentíssimo e admirável com que o Senhor obrou a nossa redenção e salvação foi sujeitando-se à morte e a todas as mais penalidades desta vida, que não desdiziam de sua Pessoa Divina, como se fora puro homem e pecador como os mais. E oferecendo ao Eterno Padre todos seus merecimentos por resgate em preço da nossa liberdade e satisfação de sua justiça. E assim a todos os que quiserem aproveitar-se deste incomparável benefício, deu poder de se fazerem filhos de Deus, e por conseguinte herdeiros de sua glória. A parte de nossa salvação que toca à redenção da alma, a deixou feita na terra, livrando-nos do cativeiro do demônio, perdoando nossos pecados, justificando-nos com sua graça, alumiando-nos com a sua doutrina, fortalecendo-nos com os seus auxílios, etc.

A outra parte, que toca à redenção do corpo, que ainda está sujeito às misérias desta vida corruptível e ao tributo da morte, há de consumar na sua segunda vinda, na qual, como está escrito em Isaías, precipitará o Senhor a morte para sempre, e desatará o vínculo do jugo, que teve oprimidos todos os Povos, e desbaratará aquela teia que dissemos se urdira sobre todas as nações: Et praecipitabit in monte isto faciem vinculi colligati super omnes populos, & telum, quam orditus est super omnes nationes. Praecipitabit mortem in sempiternum, &c. E isto é o que profetizou também David, dizendo que no tempo de Cristo nasceria a justiça e a abundância da paz, até se tirar ultimamente a Lua: Orietur in diebus ejus justitia, & abundantia pacis, donec auferatur Luna. Por Lua se entende a morte e corrupção e desta (como diz o Apóstolo) há de ser o último triunfo de Cristo, quando ressuscitar os mortos: Novissima autem inimica destruetur mors.

Estes são os males de que o Salvador livra a todos os que se salvam. Os bens de que os mete de posse (que era a outra parte em que consiste a salvação) é reinarem com Deus eternamente bem-aventurados com a vista clara de sua face, último fim para que os criou, e tesouro preciosíssimo que ab eterno lhes tinha guardado. Por isto no livro dos Provérbios, onde a nossa Vulgata lê que Deus guarda a salvação para os Justos: Custodiet rectorum salutem, lê a versão Tigurina, que Deus tem entesourada a sua Essência para os Justos: Reponit justis essentiam. Porque a vista clara da Essência Divina, essa é a salvação consumada dos escolhidos: este é o tesouro preciosíssimo que o Senhor pela caridade imensa com que os ama lhe guarda reservado e escondido dentro em si mesmo.

Outro Intérprete lê: Reservabit justis id quod est, que Deus reservará para os bons aquilo que é; e que é aquilo que é senão Deus, cuja Essência é ser o que é? Ego sum Qui sum, como ele mesmo definiu; pois tudo o mais que não é Deus não é essencialmente. Pois, como ver a essência de Deus é a nossa salvação, por isso guardar Deus para os Justos a salvação é guardar-lhe aquilo que é: Custodiet rectorum salutem: reservabit justus id quod est.

Donde se vem a entender claramente o sentido do título ou inscrição de uma carta que Gaufredo, Monge de Claraval, escreveu ao Cardeal Albanense, a qual diz assim: Amantissimo Domino, & Patri ª Dei gratia Albanensi Episcopo, & Domini Papae Vicario, Frater Gaufredus de Claravalle minimus, id quod est. Ao amantíssimo Pai e Senhor por graça de Deus Bispo Albanense e Vigário do Senhor Papa, Fr. Gaufredo o mínimo da Congregação de Claraval, roga e deseja aquilo que é. Pressuposto o que temos dito, fica manifesto o que envolve em termos tão abstratos e escuros. Vale o mesmo que dizer que lhe roga e deseja a salvação; porque como a salvação consiste em ver a Deus, e só Deus é aquilo que é, desejar um a ser próximo àquilo que é é o mesmo que desejar-lhe a salvação.

Eis aqui, pois, como a salvação consiste naqueles dous pontos que dizíamos: livrar-se pelos merecimentos de Cristo da eterna miséria e alcançar a suprema felicidade, e assim a definiu um Santo Varão contemplativo: Salus porrò est omnium malorum depulsio, in eodem (scilicet Christo) omnium bonorum eterna inventio. Ou como disse S. Bernardo, e é o mesmo por outras palavras, não ser o homem cousa alguma que não quer, e ser tudo o que quer: Beatitudo est ubi nihil sit quod nolis, & ubi totum sit quod velis. De sorte que salvar-se uma alma é satisfazer-lhe Deus com sua bondade e glória toda a sede de sua vontade, tirando-lhe tudo o que a desgosta e dando-lhe tudo o que a deleita. Por isso disse a Sabedoria Eterna nos Provérbios que quem o achasse acharia a vida e beberia do Senhor a salvação: Qui me invenerit, inveniet vitam, & hauriet salutem a Domino: onde Vatablo lê e explica: Hauriet voluntatem a Domino, id est, assequetur quidquid volet a Domino, e Pagnino: Educet quidquid voluerit a Domino.

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