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sábado, 24 de julho de 2010

Diálogo sobre o Santíssimo Sacramento, de Jean Crasset , parte I

Olá.
Para inaugurar este blog, ofereço a meus mui hipotéticos leitores esta tradução da primeira conversação dos Entretiens de devotion sur le S. Sacrement de l'autel, do jesuíta francês Jean Crasset.
Traduzido da edição de 1677, publicada por Estienne Michallet em Paris.



PRIMEIRA CONVERSAÇÃO

Em forma de Diálogo, sobre a instituição do Santíssimo Sacramento


O DISCÍPULO: Falarei ao meu Senhor, embora seja só cinzas e pó.

Ó meu Deus,  como é admirável a vossa sabedoria! Como são profundos os vossos desígnios! E como são elevados os vossos pensamentos acima dos nossos! Por que permanecestes na terra, já que o vosso corpo é agora imortal e glorioso? Não deve o mais nobre de todos os corpos estar acima de todos os Astros? E já que o vosso Trono está no Céu, não será contra a ordem que permaneceis ainda na terra? Um Rei como vós, e o maior dos Reis, deve estar em seu palácio, e não numa prisão.
O MESTRE: Permaneci na terra para contentar o meu amor. Converso com os homens, para contentar o desejo deles. Estou com os meus Discípulos, para consolá-los. Acho-me no meio das minhas ovelhas para defendê-las. Eu me entreguei à minha Igreja, para lhe servir de vítima e de sacrifício.
Não teríeis Religião, se não tivésseis um sacrifício, e já que os antigos foram ab-rogados, é preciso que eu seja até o fim do mundo imolado à glória do meu Pai, pois só eu posso ser oferecido como vítima.
O meu corpo está no Céu como em seu lugar natural; mas está na terra como num lugar sacramental. Quando desci à terra, não deixei o Céu; e quando tornei a subir ao Céu, nem por isso deixei a terra.
O DISCÌPULO: Consola-me esse pensamento e me faz entender que era preciso que permanecêsseis no mundo, para nos servir de vítima. Mas por quê, Senhor, não vos tornais visível aos nossos olhos? Por que vos escondeis sob essas espécies sacramentais, já que quereis ser amado? Entra o amor pelos olhos: se vos mostrásseis tal como sois, conquistaríeis todos os corações, impediríeis todos os crimes, sufocaríeis todas as heresias, consolaríeis todos os miseráveis, converteríeis todos os pecadores, salvaríeis todos os homens.
O MESTRE: Sou um Deus oculto. Ninguém me vê sem antes ter morrido. Escondi a minha Divindade sob a forma de homem, e agora escondo a minha Humanidade sob a forma de pão. Já que a vossa vida é um estado de fé, é preciso que meu corpo nela esteja coberto por um véu. Já que a vossa vida é um estado de mérito, é preciso que o vosso espírito nele seja humilhado.
Adão no Paraíso terrestre deu mais crédito à palavra da serpente do que à minha. Para reparar essa culpa e para punir essa curiosidade, é preciso que o homem creia mais na minha palavra, que lhe diz que este é o meu corpo, do que à de Satã, que diz que não o é. A fé consagra o vosso espírito e o torna, de profano, Religioso; ela vos faz compreender o que é incompreensível; ela eleva os vossos conhecimentos acima da razão; ela humilha o vosso orgulho e vos torna submissos. É preciso crer para ver; a fé é o princípio do mérito e a semente da glória. E como teríeis a fé, se vísseis o que credes, sendo ela essencialmente obscura?
O DISCÍPULO: Sei, meu Senhor, que a vossa Humanidade devia ser objeto da nossa fé, tanto quanto a vossa Divindade, e que assim uma e outra deviam estar ocultas: mas por que sob a forma de pão? Será tal estado conveniente a um homem, a um Rei, a um Deus? Não é justo que vos honremos na terra? E quem pode honrar-vos nesse estado e nessa figura? Vedes os ultrajes que vos fazem e quanto custa à vossa glória ter querido contentar o vosso amor. (segue)

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